Publicidade
Início Bragança Paulista Caso Santa Casa: Ministério Público apura relação entre vereador e repasses públicos

Caso Santa Casa: Ministério Público apura relação entre vereador e repasses públicos

Inquérito civil apura possível conflito de interesses envolvendo Fabiano Júnior Leite de Souza, o "Juninho Boi", e busca esclarecer contradição entre repasses recebidos pela instituição e longas filas no atendimento gratuito

0
Publicidade

A Promotoria de Justiça de Bragança Paulista instaurou Inquérito Civil para apurar se o vereador Fabiano Júnior Leite de Souza, conhecido como “Juninho Boi”, destinou emenda parlamentar à Santa Casa de Misericórdia da cidade enquanto mantinha, simultaneamente, contrato pessoal de publicidade com a entidade. 

A situação, segundo o órgão, pode configurar conflito de interesses e ato de improbidade administrativa, que trata de dano ao erário por concessão de benefício a terceiro sem observância das formalidades legais.

A apuração consta em um ofício enviado ao presidente da Câmara da cidade, expedido pela Promotoria nesta quinta-feira (18). O documento dá ciência à Casa Legislativa sobre a portaria que abriu o Inquérito Civil, assinada em 16 de junho pelo promotor Adonai Gabriel, responsável pela investigação.

Procurado pelo Mais Bragança, Juninho Boi diz que “isso é uma narrativa”, e que todos os colegas vereadores também teriam destinado emendas para a Santa Casa. “Só porque eu tenho apoio da Santa Casa, plano de saúde, que são empresas diferentes. Época de eleição, faz parte”, afirmou.

Também procurada, a administração Santa Casa não retornou as tentativas de contato, deixando o espaço aberto para eventual réplica.

O que está sendo apurado

Uma emenda parlamentar destinada pelo vereador Juninho Boi à Santa Casa, datada de novembro do ano passado, e para ser executada neste ano, previa a transferência de mais de R$ 274 mil para o custeio de consultas especializadas, exames complementares e procedimentos cirúrgicos eletivos.

O Ministério Público de São Paulo, contudo, não especificou qual emenda parlamentar de fato motivou a abertura da investigação, e se aquela é alvo de investigação. No entanto, segundo o ofício obtido pela reportagem, o objeto da apuração vai além da destinação de recursos atribuída a Juninho Boi. A Promotoria conduz uma investigação de escopo mais amplo, voltada à análise de todas as emendas parlamentares encaminhadas à Santa Casa, o que inclui a atuação dos demais vereadores de Bragança Paulista na destinação de recursos públicos à instituição.

A Promotoria também busca esclarecer eventual contradição entre os valores recebidos pela entidade e as longas filas de atendimento relatadas pela população — situação que ganha contorno adicional pelo fato de a instituição operar, em paralelo ao atendimento via SUS, um plano de saúde particular no município.

Até a expedição da portaria, três frentes já haviam respondido a questionamentos preliminares da Promotoria. 

  • A Câmara Municipal informou que as emendas estão listadas em site eletrônico e enviou a relação completa dos repasses. 
  • A Santa Casa, por sua vez, afirmou não possuir contrato formal com o vereador, mas confirmou ter recebido repasses de emendas dele e de outros parlamentares — questão que já tramitava sob o procedimento interno. 
  • A Prefeitura identificou a emenda do vereador, sob análise no procedimento.

As diligências determinadas

A portaria estabelece quatro frentes de diligência. Além das anotações processuais internas, a Promotoria oficiou a Prefeitura, solicitando cópia integral dos dois procedimentos já citados e a relação de todos os demais processos sobre emendas destinadas à Santa Casa, com indicação de valores e autores.

À Santa Casa, o órgão requisitou quatro itens: identificação da pessoa jurídica responsável pelo plano de saúde comercializado pela entidade, com contrato social atualizado; informação sobre eventual contrato de qualquer natureza entre vereadores e a Irmandade ou entidades a ela relacionadas; croqui do prédio de atendimento em Bragança Paulista, discriminando salas, quartos, UTIs e recepção tanto do atendimento SUS quanto do particular; e relatório com o tempo médio de espera entre a retirada de senha e a consulta médica no setor gratuito.

Por fim, cópias da portaria foram encaminhadas ao Município, à Câmara de Vereadores e à própria Santa Casa, para ciência e eventual acesso aos autos por procurador constituído — etapa cumprida pelo ofício agora obtido pela reportagem.

A Prefeitura tem 30 dias para responder às solicitações, enquanto a Santa Casa dispõe de 25 dias. O inquérito civil como um todo tem prazo de um ano para apuração final dos fatos.