Um levantamento conduzido pelo historiador Bruno Oliveira e pelo jornalista Iago Seo identificou que a maior parte dos anúncios de escravizados fugitivos publicados entre 1875 e 1884 no jornal A Província de São Paulo fazia referência a cativos oriundos das regiões Nordeste e Sudeste. Ao todo, foram sistematizados 275 anúncios únicos com menção à origem geográfica dos fugitivos. O material integra o acervo do periódico, que posteriormente se tornou o Estadão.
Segundo os dados, os estados de São Paulo e Bahia concentram juntos 43,64% dos casos mapeados. Também aparecem com destaque as províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul.

Em termos agregados, o Nordeste Imperial correspondeu a 47,08% das origens, seguido pelo Sudeste, com 42,70%. Norte e Centro-Oeste somaram menos de 2%, evidenciando o padrão das migrações internas compulsórias que marcaram o tráfico de cativos no período final do Império. A Bahia fornecia mão de obra às regiões centrais, enquanto o Sul apresentava maior presença de escravizados crioulos, nascidos no Brasil, refletindo uma lógica de reprodução local.
Uma análise histórica
A pesquisa ressalta que 82% dos anúncios datam da primeira década do jornal, o que justifica o recorte temporal. Além disso, foram identificadas mudanças editoriais ao longo dos anos: em 1884, a publicação deixou de aceitar anúncios referentes à compra, venda ou fuga de cativos. Os pesquisadores apontam uma redução de 30,17% nos anúncios de fuga ao longo do período, o que revela tanto uma inflexão editorial quanto uma mudança de mentalidade pública.
A descrição dos cativos, segundo o levantamento, trazia detalhes como cor da pele, estatura, marcas no corpo e habilidades laborais. Ainda que não quantificados formalmente, esses atributos revelam a heterogeneidade da população escravizada, composta por homens e mulheres de diferentes idades e características físicas.
“A maioria dos escravizados anunciados era brasileira de nascimento, com exceções pontuais de africanos vindos do Congo”, aponta o estudo.
Para o professor Bruno Oliveira, a análise dos anúncios também permite compreender os desdobramentos sociais do período seguinte. Ele menciona o surgimento da Lei dos Vadios e Capoeiras, que criminalizava quem estivesse sem trabalho formal, frequentemente afetando os libertos.
“Existe um movimento que, primeiro, tira a oportunidade de trabalho. Segundo, criminaliza o negro que não trabalha”, disse. Segundo ele, bairros periféricos formados por ex-cativos foram historicamente marcados pelo abandono e apagamento. “A punição, o castigo, é para o negro. O negro já é criminalizado a partir daí.”
O papel ambivalente da imprensa
A pesquisa também destaca o papel ambíguo da imprensa na engrenagem do sistema escravista. De um lado, o jornal atuava como ferramenta de repressão, permitindo a recaptura dos fugitivos por meio de anúncios pagos. De outro, o acervo se consolidou como fonte documental valiosa para a reconstrução da memória histórica.
“A imprensa mantém um pacto secular com a sociedade. Registra o presente para que o futuro possa compreendê-lo. Todos nos tornaremos história — e cabe a nós assegurar a preservação desses ‘fósseis líquidos’ que revelam quem fomos. Foi isso que o Estadão fez ao longo de seus 150 anos”, comentou o jornalista.
Mesmo com caráter quantitativo, o estudo ressalta a pluralidade de origens e identidades dos escravizados, em uma sociedade onde a informação impressa servia tanto para capturar quanto para preservar a memória dessas vidas.






