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Mapa criado por jornalista do Mais Bragança revela bairros afetados pela violência contra a mulher 

O projeto independente do jornalista da região de Bragança Paulista tem chamado atenção por cruzar microdados da SSP-SP para mapear ocorrências por bairro em todo o estado de SP

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A violência contra a mulher no Brasil permanece como um dos desafios mais complexos da segurança pública. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, reunidos no Atlas da Violência 2026, mostram que 3.642 mulheres foram assassinadas no país em 2024. Em uma década, entre 2014 e 2024, o levantamento contabilizou 46.336 vítimas, evidenciando a persistência e a gravidade desse tipo de violência no Brasil.

O tema também ganhou espaço no debate político nacional. Um dos exemplos é o Projeto de Lei nº 896/2023, apelidado por críticos e apoiadores de “PL da Misoginia”, que tem provocado intensas discussões nas redes sociais e entre diferentes setores da sociedade.

Mais recentemente, o Senado Federal aprovou o Projeto de Lei nº 6.113/2023, que cria o Banco Nacional de Boas Práticas na Prevenção e no Combate à Violência contra a Mulher. A proposta, aprovada pelo plenário em 17 de junho, segue agora para sanção presidencial.

A iniciativa tem como objetivo reunir informações sobre programas, ações e projetos que apresentaram resultados positivos no enfrentamento da violência de gênero. A expectativa é que o banco de dados funcione como instrumento de cooperação entre órgãos públicos, instituições e entidades da sociedade civil, estimulando a troca de experiências e o fortalecimento de políticas voltadas à proteção das mulheres.

Mapeamento regional cruza dados oficiais por bairro

Na mesma linha da cooperação para o enfrentamento à violência de gênero, o jornalista da região de Bragança Paulista, e colaborador do Mais Bragança, Iago Yoshimi Seo desenvolveu um mapa de calor interativo com infográfico editorial, reunindo os bairros de São Paulo com registros de violência doméstica, feminicídio e tentativa de feminicídio, além de trazer o perfil das vítimas. O projeto, segundo o autor, ainda está em versão inicial, mas já apresenta resultados considerados promissores.

Iago detalhou que a base de dados utilizada tem origem na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), obtida via pedido à Lei de Acesso à Informação, com recorte entre 1º de janeiro de 2025 e 30 de abril de 2026.

 “Cada ponto no mapa é um bairro onde há, ao menos, uma ocorrência de violência contra a mulher, e conforme tiver mais registros, maior o círculo de calor”, explicou Seo.

Sobre o mapa de calor

A principal ferramenta do projeto é um mapa de calor interativo, que permite identificar mais de 24 mil bairros, espalhados pelos 645 municípios do estado paulista, com maior concentração de ocorrências de violência contra a mulher. O pesquisador responsável comentou que inicialmente, apenas uma pequena parcela dos registros originais continha coordenadas geográficas próprias nos microdados obtidos. Para superar essa limitação, o projeto reconstruiu a localização dos casos por meio de técnicas de geocodificação baseadas nos nomes dos bairros e das cidades.

Com essa metodologia, foi possível alcançar uma cobertura de 92,2% das ocorrências geolocalizadas em bairros específicos. Os registros restantes foram associados ao centro geográfico do respectivo município. Os casos registrados de forma genérica como pertencentes à “zona rural”, sem indicação de bairro, receberam tratamento estatístico específico para evitar a concentração artificial de ocorrências em um único ponto do mapa.

Nesses casos, os registros foram redistribuídos proporcionalmente pelas áreas rurais de cada município, com base nos limites territoriais definidos pelo IBGE, resultando em uma representação espacial mais fiel à distribuição geográfica dos dados.

O próximo passo agora é realizar uma comparação dos dados incorporados ao mapa, e confrontar as mais de 270 mil ocorrências com os pontos de calor”, explicou.

Os números levantados

Segundo o levantamento realizado pelo jornalista, o cruzamento dos microdados resultou nos seguintes indicadores gerais:

  • Registros de violência doméstica: 270.295
  • Feminicídios consumados: 374
  • Tentativas de feminicídio: 1.041
  • Total de feminicídio (consumados e tentados): 1.415

Onde e quando ocorrem os casos

Considerando o conjunto de violência doméstica e feminicídio, o local mais recorrente das ocorrências é a própria residência da vítima, seguida pela via pública:

  • Residência: 151.599
  • Via pública: 98.577
  • Internet: 8.408
  • Comércio ou shopping: 2.817
  • Bar ou restaurante: 1.689
  • Unidade de saúde: 1.361
  • Área rural: 1.352
  • Local de lazer: 758
  • Ambiente de ensino: 624

Em relação ao horário das ocorrências de violência doméstica com dado válido (213.853 registros), a maior concentração acontece no período noturno: noite (18h–23h), 80.421 casos (37,6%); tarde (12h–17h), 59.155 (27,7%); manhã (6h–11h), 45.416 (21,2%); e madrugada (0h–5h), 28.861 (13,5%).

Já entre os casos de violência praticada por meios digitais, o WhatsApp concentra a maior parte das ocorrências, com 3.903 registros (46,4%), seguido por outras plataformas de internet em geral. Instagram e Facebook somam, juntos, pouco mais de 5% dos casos.

O pesquisador ressaltou que a interpretação dos dados exige cautela e múltiplas etapas de verificação, já que existem diversas nuances na forma como as ocorrências são registradas. Um dos exemplos citados é o fato de que boletins de ocorrência podem ser formalizados em municípios diferentes daqueles onde a violência efetivamente aconteceu, o que pode gerar distorções na leitura dos números. 

Iago Yoshimi destacou que a base utilizada não contém endereços individuais, preservando o anonimato das vítimas e das ocorrências. Segundo ele, a proposta é disponibilizar o mapa ao público nos próximos meses, permitindo que cidadãos, pesquisadores e gestores públicos consultem os dados de forma acessível. A intenção também é tornar público o código-fonte utilizado no projeto, ampliando a transparência da metodologia empregada e possibilitando que a ferramenta seja auditada e aperfeiçoada por outros desenvolvedores e pesquisadores:

Espero que a sociedade utilize essa ferramenta para ampliar a vigilância e a conscientização nos bairros com maior incidência de casos. Também espero que as forças de segurança possam empregá-la de forma estratégica, contribuindo para a proteção da vida e da integridade das centenas de mulheres que sofrem, muitas vezes em silêncio, sob a violência doméstica e de gênero. A violência contra a mulher não se combate com discursos ou populismo, mas com políticas públicas eficazes, prevenção e ação concreta”.